Archive for Dezembro, 2008

Direitos Humanos e o show de incoerências

Passados 60 anos após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, celebrados no dia 10 passado, ainda há muito a ser feito, inclusive na cidade onde moro, no litoral Catarinense, famosa pelas belas praias e pela “Noite”, com igrejas abastadas e com grande afluxo de turistas de todas as partes do mundo, gerando enorme riqueza para o município.

Os Evangeligospels, por exemplo, em grande número aqui também, especialistas em shows Gospels e “Marchas para Jesus” com discursos inócuos e alienados, perderam mais uma vez a oportunidade de se manifestar em prol da dignidade humana. Por alguma razão não faz parte da sua agenda se solidarizar àqueles que demandam por uma globalização mais ética e solidária, já que 85% da renda mundial concentra-se em poder dos 15% mais ricos, enquanto os 85% mais pobres retém apenas 15% dessa renda, sendo a pobreza a principal causa mortis do mundo, conforme dados da OMS.

Enquanto isso os Evangeligospels ficam ostentando sua bazófia promovendo Shows Gospels como um realizado recentemente, com direito a banda importada e cantora Gospel de maior prestígio no circuito Gospel. Os cachês para esse pessoal com certeza não deve ter saído barato, muito pelo contrário. Tudo assistido por milhares de fieis que lotaram a praia. Obviamente não faltaram as barracas com produtos Gospel. O mega-show fazia parte do marketing de uma igreja que mudou o nome para “Embaixada do Reino de Deus”. Por aqui também há uma dessas franquias da fé que, na fachada do local dos cultos traz a seguinte chamada: “O Show da Fé”.

Num momento em que proliferam pelo país afora os “shows da fé” e pirotecnias Gospels, sem relevância social, além dos interesses e ganhos pessoais envolvidos e que, via de regra, servem apenas para acentuar uma cultura de alienação e de uma postura acrítica, permanece, nas palavras de Flávia Piovesan: “ o desafio de fortalecer o Estado de Direito e a construção da paz nas esferas global, regional e local, mediante uma cultura de direitos humanos, enquanto racionalidade de resistência e única plataforma emancipatória de nosso tempo, inspirada no princípio da esperança e na capacidade criativa e transformadora de realidade.” (1)

Lamentavelmente o processo de construção dos Direitos Humanos, visando consolidar espaços de luta pela dignidade humana não faz parte da agenda desse grupo identificado como Igreja Evangélica, nos moldes em que ela se apresenta nos dias atuais.

Ao mesmo tempo em que uma igreja, ou seja lá o que for, se auto denomina “Embaixada do Reino de Deus” e patrocina um mega-show com celebridades do cenário Gospel internacional, e outra faz propaganda do Show da Fé, algumas famílias, adultos e crianças, possivelmente oriundos de uma comunidade indígena e/ou de um país vizinho, em busca de melhores condições de vida, dormem amontoados, humilhados sob a marquise de um prédio na região central da cidade. Durante o dia as mães com as crianças ficam sentadas pedindo esmolas na calçada da rua principal e de maior movimento enquanto os homens adultos tentam arrumar trabalho nas obras e prédios em fase de construção.

O que se constata na verdade é um show de incoerências, com a conivência de fieis passivos e acríticos. Afinal, ao que tudo indica a construção e a consolidação de uma ética universal fundada no valor da dignidade humana, como valor intrínseco a toda e qualquer pessoa, conforme rege a Declaração Universal dos Direitos Humanos, não fez, e não faz, parte desse show.

(1) Jornal Estado de São Paulo, Caderno Aliás J5, de 14/12/08. Flávia Piovesan. Doutora em Direito Constitucional e Direitos Humanos e Professora na PUC/SP, PUC/PR e Universidade Pablo de Olavide, Sevilha, Espanha.

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Crente deveria ser como o Espírita

Não faz muito tempo ouvi o seguinte de uma pessoa que nasceu num lar Evangélico:

 

“Crente deveria ser como o Espírita. O crente fala muito que a salvação é pela Fé, independente das obras e acaba não fazendo nada pelos outros. Por ter nascido em família Evangélica cresci na igreja onde tinha muitas amigas, porém, alguns anos mais tarde, quando precisei de apoio, ninguém dos contatos da igreja se interessou em estar ao meu lado.  Fiquei na igreja até os 18 anos mas nenhuma amizade daquela época permaneceu. As amigas que me ajudaram eram aquelas que não faziam parte da igreja. Os crentes viram as costas para aqueles que, na visão deles, saem da linha e fazem escolhas diferentes das regidas pelo senso comum do gueto evangélico. Os crentes deveriam seguir o exemplo de Jesus que acolhia os pecadores, ao invés de julgá-los e excluí-los.”

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A Quem Compete Fiscalizar?

Nas últimas eleições tive a oportunidade de acompanhar de perto a campanha política de uma amiga, que concorria a um cargo público. Como é natural, especialmente em épocas de campanha política, ela visitou várias igrejas da localidade apresentando seu projeto e suas idéias.

Numa das conversas que tivemos perguntei a ela sobre como andavam os contatos e visitas às igrejas. Ela riu e disse:  “A gente enfrenta cada uma nessas igrejas…  eu estou cada vez mais convencida de que deveria existir um órgão –  à semelhança de tantos que existem, como o que fiscaliza restaurantes para evitar que sirvam alimentos estragados -  que fiscalizasse o que acontece nas igrejas. A situação nas igrejas”, continuou minha amiga, “é uma questão de saúde mental, pois deixam as pessoas perturbadas.”

Um tanto surpreso com a reação dela perguntei o que havia acontecido.

A  convite de um determinado pastor ela esteve numa mesma igreja algumas vezes. Não demorou muito e ela percebeu um interesse diferente da parte daquele pastor que gostava de cumprimentá-la com, conforme ela mesma relatou, “um abraço que nunca terminava, longo, pegajoso, nojento, enquanto ele falava baixinho no meu ouvido:  ‘minha ovelhinha preferida. Não se preocupe. Você sabe que os fiéis fazem tudo o que o pastor manda.’ Não bastasse isso”, disse ela, “o coitado ligava para o meu celular todas as manhãs para fazer uma oração que eu tinha que repetir, frase por frase, e que não acabava nunca. Só parava quando eu me recusava a repetir a frase que ele mais gostava de repetir na tal oração.” Mas qual frase, perguntei a ela, já anotando tudo e curioso para saber que história era aquela. Um tanto sem jeito e constrangida ela disse: “Ele ficava insistindo para que repetisse  ‘eu te adoro’”.

“Eu te adoro!” O contexto de uma oração que, entende-se, deve refletir um momento de intimidade com Deus, era usado por ele para viver uma fantasia momentânea.

Julgar o tal pastor e taxá-lo disso ou daquilo é a atitude mais fácil para quem se considera santo e perfeito. No mínimo ele precisa de ajuda. Mas também não posso deixar de concordar com minha amiga, que também não o julgou, mas fez a pergunta que uma pessoa preocupada e engajada deve fazer: a quem compete fiscalizar o que acontece nas igrejas?

 

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