Archive for Maio, 2008
Será que essa gente se salva?
Confesso que até pouco tempo atrás não tinha muito interesse pelo cinema nacional. Mas, felizmente, isso está mudando. Não vejo a hora de assistir “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, que teve estréia aplaudida em Cannes na semana passada.
Nas palavras de Salles o filme é sobre “gente que se salva”, uma metáfora do Brasil retratando o cotidiano de uma família na periferia de São Paulo. Nessa família há quatro filhos. Irmãos, mas apenas por parte de mãe.
Salles sugere que “a condição bastarda dos personagens – os quatro filhos - coincide com a histórica ausência da figura paterna no Brasil. Fomos batizados por colonizadores, o nome Brasil nos foi dado pelos portugueses, e o ato seguinte à nomeação foi levar para Portugal todo o Pau-Brasil da nossa costa. Fomos batizados por um padrasto que nos abandonou” (Folha de São Paulo. Caderno MUNDO A-19, 18/05/08).
Observando a condição dos evangélicos com os quais tenho contato e a dificuldade que apresentam para articular sua identidade Evangélica Reformada, a pobreza e a irrelevância da programação das igrejas, apesar de toda a parafernália midiática, me pergunto até que ponto o movimento Evangeligospel no Brasil não vive exatamente essa condição de ter sido batizado por um explorador que, com a ajuda e conivência interesseira de “laranjas” brasileiros, além de continuar trazendo modismos Gospel para o contexto brasileiro continua eficiente na manutenção de uma prática exploratória dos recursos dessa multidão crédula e acrítica.
Uma evidência dessa condição pode ser verificada, por exemplo, na dificuldade que grande dos Evangeligospels têm de identificar sua trajetória de Fé com o Protestantismo Histórico Reformado. Ou seja, peça a um Evangeligospel que explicite as bases de suas convicções. Dependendo da resposta será possível constatar, ou não, a ausência de um referencial teológico-histórico-conceitual adequado e defensável. Caso o caro leitor deseje ainda fazer outro teste, experimente perguntar a uma pessoa que faça parte de uma igreja Evangeligospel, seja uma dessas tradicionais ou de cunho Pentecostal, ou Neo-Pentecostal, ou independente, o que diferencia uma coisa da outra.
Se minhas suposições estiverem na direção certa, a exemplo da metáfora apresentada no filme “Linha de Passe”, talvez seja possível afirmar que a grande maioria das igrejas Evangeligospels que vemos por ai insiste - por falta de conhecimento histórico, dentre outras coisas - em substituir uma figura paterna mais confiável, ou seja, o pensamento e a tradição Evangélica Reformada, por idéias de um sistema explorador inescrupuloso e voraz.
Aproveite bem o filme!
