Archive for Fevereiro, 2008
O Oráculo no cativeiro
Tenho acompanhado as notícias sobre o drama dos reféns dos seqüestrados na Colômbia. É difícil não ficar indignado com aquela situação. Enquanto lia sobre isso no último final de semana lembrei-me de uma viagem que fiz àquele país, há alguns anos atrás.
Nem bem saí da aeronave, no aeroporto de Bogotá e logo notei a presença de soldados do exército, fortemente armados. Estavam em todas as áreas e cantos do aeroporto. A sensação de estar sendo vigiado era inevitável. Achei melhor tirar logo os óculos escuros. Como a viagem era de negócios, fui de paletó e gravata. A inseparável mochila nas costas e uma pequena mala com rodinhas permitiam que eu andasse com passos firmes. Depois de percorrer vários corredores estreitos e saguões repletos de policiais e propaganda do café colombiano, mundialmente famoso, e não sem razão, finalmente cheguei ao saguão onde os passageiros eram aguardados. Não demorou e a pessoa que me esperava me identificou e sem muita conversa rapidamente me deixou no hotel. Nunca mais o vi.
Havia muitos espelhos na recepção e em toda a área interna do hotel. As cortinas eram pesadas, de cores escuras e fortes. Eu não via a hora de sentar no Bar do hotel, tomar um café e ler o jornal, sem pressa, e tirar o estresse e tensão da viagem. O garçom falava baixinho e apenas o necessário, respeitando a privacidade dos hóspedes. O ambiente era convidativo. Mesmo estando fora da minha zona de conforto eu estava me sentindo à vontade e pronto para as conversas que tinha pela frente. Eu estava na Colômbia por causa de um seqüestro. Mas não um seqüestro de pessoas. Tratava-se do seqüestro do Oráculo Sagrado. Eu tinha ido à Colômbia para tratar dos termos e condições da libertação. Libertação do Oráculo, o Oráculo Sagrado.
A pessoa com quem eu precisava me encontrar fazia parte, como ainda faz, do esquema dos seqüestradores. Ele era, e ainda é, apenas um “laranja”, mas um “laranja” poderoso, responsável pelas operações em toda a América Latina. Bom de conversa, tipo camaleão. Duas caras. Ele sabia como ainda sabe, usar muito bem o jogo de reflexos, como as imagens enganosas que se formavam ao caminhar pelos corredores e salas daquele hotel. Com retórica pseudo-apaixonada de defensor dos interesses e sentimentos do povo e igreja latino-americanos, mas na realidade servindo aos interesses dos poderosos. Fiel aos chefões dos EUA, onde reside até hoje. Ele quis que tivéssemos aquela conversa na Colômbia talvez pensando que eu seria mais facilmente intimidado e passasse para o lado dele, dos seqüestradores que ele representava. Seqüestradores do Oráculo, do Rolo
Voltei ao Brasil sem sinal de que o seqüestro pudesse ser desfeito tão cedo. O “laranja” colombiano apenas cumpria ordens, e cumpre, até hoje. É um elemento poderoso na teia de ligações e interesses que com aquele jogo de imagens e retórica vazia, ainda mantém o Oráculo no cativeiro.
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