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Diário da minha motocicleta
Depois de ter ficado quatro horas na beira da estrada tive que reconhecer, mais uma vez, que certas coisas na vida não funcionam do jeito que eu quero ou com base apenas naquilo que eu desejo ou espero. Ou seja, que a minha vontade seja feita, simplesmente porque é o que eu quero.
Há alguns meses arrumei uma nova companheira de estrada. Foi amor à primeira vista, embora a conhecesse pouco. Aprendi o básico sobre ela, naquilo que “eu” julgava importante e suficiente. Mera presunção. Pegamos a estrada juntos, eu e minha companheira cujo nome eu não sabia ainda. Tudo estava indo às mil maravilhas. Eu gostando dela e ela de mim. Casamento perfeito. Manhã ensolarada, vento batendo no rosto. Eu orgulhoso e feliz que estava curtia aquele momento de prazer. Sonho antigo que estava se concretizando. E ela deslizando suavemente com seu brilho prateado me levava sem reclamar de nada. O vento e o sol também lhe faziam bem. De repente ela começou a falhar. E foi falhando até que precisei encostar. Chequei tudo na expectativa de encontrar algum cabo que pudesse estar solto. Olhei em tudo o que eu conseguia identificar como importante e tudo parecia em ordem. Além disso o combustível era de procedência confiável. Não podia ser sujeira no carburador. Com isso descartei qualquer problema nessa área.
O mostrador do combustível, digital, indicava dois quadradinhos dando a entender que o problema não podia ser falta de combustível. Quando o tanque estava cheio seis quadradinhos daqueles ficam acesos. Portanto, concluí, dois quadradinhos representam ainda praticamente 1/3 do tanque, o que é mais do que suficiente para rodar bastante ainda. Foi o que pensei.
Quatro horas se passaram e finalmente o “socorro” chegou. Um rapaz franzino, bem atencioso e educado, chegou de moto. Depois de fazer algumas perguntas ligou o chave, deu a partinha, e nada. E aí ele me fez aquela perguntinha chave: “você virou a torneirinha do combustível?” Ele sorriu ao ouvir minha resposta, na forma de pergunta: “Que tornerinha?” Em menos de dois minutos meu problema estava resolvido. Tudo o que ele fez foi virar a “torneirinha” e dar a partida. E a minha companheira voltou a funcionar.
Antes de ir embora ele me explicou a função dessa tal “torneirinha” – coisa que, ninguém havia me explicado antes. “Você pode rodar ainda uns 40 km com o que tem na reserva”, disse me ele. “Mas pare no próximo posto e abasteça. Lembre-se que quando o marcador do combustível marcar esses dois quadradinhos você precisa virar a torneirinha e usar o combustível da reserva. Mas isso só vai funcionar se você virar a torneirinha. Não esqueça.”
Lá fomos nós de novo, eu e minha companheira. Aprendi a lição. Pelo menos acho que aprendi. na vida sempre estamos começando uma coisa nova e andando por novos caminhos. E em toda nova situação há uma dessas “torneirinhas”. Por isso aprendemos muito e nos poupamos de algumas dores de cabeça, se criarmos o hábito de fazer perguntas para quem tem mais experiência.
Se o desconhecimento do funcionamento de uma engrenagem mecânica pode nos fazer perder quatro horas na estrada, imagine o estrago que o desconhecimento de uma ‘torneirinha’ dessas não faz quando o assunto é uma tomada de decisão importante, uma negociação ou o início de uma nova etapa na vida pessoal ou profissional?
Não convém ser presunçoso e achar que já sei de tudo, ou que estou em controle. Não é suficiente apenas desejar que tudo dê certo e esperar que o mundo funcione de acordo com a minha vontade. Isso em inglês chama-se “wishful thinking”. Depois da lição aprendida minha companheira e eu não tivemos mais problemas. Continuamos nos dando muito bem. E eu até já aprendi a pronunciar o seu nome.
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