Archive for Março, 2007
Bergman e um fino casal
A vida e carreira de Ingmar Bergman, grande cineasta sueco considerado “o pai do cinema psicológico”, foram marcadas por uma experiência familiar cheia de repressão e medo. Desde a infância, tudo o que aprendeu dos seus pais foi afastamento, humilhações e punições. Ele só conseguiu dialogar com sua mãe quando ela já estava com 60 anos de idade. Seu pai tinha o hábito de trancá-lo num quarto escuro. Mais triste ainda é saber que seu pai era pastor evangélico.
Quão diferente poderia ter sido a vida e carreira de Bergman se, em lugar de quartos escuros seus pais tivessem lhe oferecido um lar que refletisse os verdadeiros atributos do caráter de Deus! A falta de uma mente cristã equilibrada pode afetar o sentido de prioridades e pode gerar problemas não apenas para o indivíduo como também para as pessoas ao seu redor.
O Surfe nasceu na Havaí e foi reprimido por missionários que lá chegaram em 1820. Os missionários, imbuídos da educação puritana que só conhecia a ética do trabalho, rapidamente identificaram no surfe os “deploráveis elementos da imoralidade e da frivolidade”. O esporte foi considerado nocivo ao comportamento dos habitantes e a sua prática foi fortemente desestimulada.
Uns dias atrás fui ao cinema, como costumo fazer sempre que posso. Há poucos assentos de onde eu estava sentado havia um casal. A julgar pelo tipo de corte de cabelo e estilo do vestido da senhora, assim como o estilo do seu companheiro, tudo levava a crer que eles faziam parte de alguma igreja “de crente”. Era aquele perfil que qualquer pessoa sabe identificar como jeito e roupa “de crente”. E olha que eu tenho experiência nesses assuntos … Mas estavam bem arrumados, ele e ela. Porém, para meu espanto, e também da pessoa que me acompanhava, após terminado o filme e as pessoas se levantavam para sair, vimos que a área próxima dos assentos que tinham sido ocupados por aquele casal lembrava a cena que se vê numa arquibancada de campo de futebol, depois do jogo. Lixo para todo lado. Pipoca, lata de refrigerante e papel para todo lado.Uma vergonha. Impossível não notar. No entanto, o “fino casal” saiu sem o menor constrangimento.
Não deve causar surpresa o fato de que, em várias partes do mundo, incluindo certamente o Brasil, há tanta aversão em relação aos “crentes”. Afinal, quem poderia se interessar por um Evangelho de quartos escuros, humilhações, proibições e falta de educação no cinema?
Um caprichoso destino
A morte não tem simulacros ou clone. Quando ela chega não há como confundi-la com uma ilusão ou com a realidade virtual. No dia 6 passado morreu Jean Baudrillard, sociólogo, filósofo, crítico da sociedade de consumo, estudioso da comunicação e da mídia. Criador de conceitos tais como “hiper-realidade” e “simulacros”, dentre outros.
Enquanto o conceito de “produção” era a força motriz do mundo moderno, a reprodução – simulacro – é o que dita as regras do jogo e permeia o mundo pós-moderno.
Não se trata de mera imitação em que quase não se percebe a diferença entre cópia e realidade. O simulacro (a realidade virtual, TV, etc.) confunde o que é real com o ilusório.
Por falar nisso, convenhamos, de simulacros a mídia religiosa, Evangélica ou não, entende bem. Os meios – religiosos de comunicação em massa, onipresentes em nossa cultura, esbanjam visões e bricolagens, vendendo experiências supostamente genuínas e verdadeiras que funcionam apenas na dimensão virtual, chamada de “mundo espiritual” na maior parte dos programas de TV.
O legado de Baudrillard não ficará restrito às suas obras, apesar de sua extensa produção literária. Quando perguntado sobre quais obras e conceitos – de Baudrillard – permanecerão – o sociólogo polonês Zygmunt Bauman respondeu: “em nosso mundo veloz as obras tendem a ser rapidamente esquecidas, enquanto o destino dos conceitos tende a ser caprichoso”. *
No Evangelho de João lemos que Deus se fez carne e habitou entre nós. Ele não mandou uma imagem, um clone. Não se tratava de uma aparição virtual. Ele veio em pessoa, nasceu num estábulo, andou pelas ruas empoeiradas da Palestina, participou de festas de casamento, comeu na casa de amigos, com eles se alegrou e por alguns deles até chorou. Encheu de esperança os desvalidos, curou doentes e ressuscitou gente que já havia morrido. Sofreu as nossas dores e levou sobre si os nossos pecados. Ressuscitou três dias após sua morte e prometeu que voltará para instaurar o Novo Céu e a Nova Terra. Será a realidade na sua forma absoluta e definitiva.
* Folha de São Paulo, 11/03/07 Caderno Mais – p. 4 e 5
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