Archive for Novembro, 2006

Onde foi parar a “Mente Cristã”?

“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.”
Sócrates

Se concordarmos com esta afirmação atribuída a Sócrates, filósofo grego, colocamo-nos ao seu lado a respeito do perigo de uma vida que não se examina.

O que significa pensar de mane ira cristã? Como orientar o pensamento e a mente a partir de pressuposições cristãs é um tema de vital importância para os seguidores de Jesus Cristo.

Bertrand Russell, ateu confesso, autor de Porque Não Sou Cristão, não se equivocou quando disse, já no final de sua vida:

“Os cristãos, na sua maioria, preferem morrer a se dar à reflexão e ao pensar. Na verdade é isso que eles acabam fazendo, isto é, morrendo.” (1)

Ter a mente cristã é poder analisar, avaliar, entender, perceber – ainda que imperfeitamente - o mundo ao nosso redor e formular conceitos, idéias, à luz das verdades reveladas de Deus, a ponto de - ainda que imperfeitamente – estarmos pensando os pensamentos de Deus, a respeito de qualquer assunto, por mais complexo ou simples que seja.

O indivíduo que está conscientemente aperfeiçoando a mente cristã lida com informações, experiências, idéias, imagens, conteúdo de uma propaganda na mídia, num outdoor, argumentos ou conteúdos encontrados em um livro ou revista, incidentes ou tragédias, pessoais ou não, a ponto de poder encaixa-las de acordo com o seu real valor no mapa do entendimento (cosmovisão) que ele já tenha adquirido. Não se trata simplesmente de pensar isoladamente a respeito de temas ou assuntos normalmente tidos como mais espirituais, tais como oração, santidade, evangelismo etc. Harry Blamires, que popularizou a expressão “mente cristã”, por meio do seu livro The Christian Mind, bem diz:

“Uma mente cristã é uma mente treinada, informada e equipada para manusear os dados de uma controvérsia secular dentro de uma quadro de referência constituído por pressuposições cristãs [ …] Por exemplo, pressuposições quanto à universalidade do mal, quanto à verdade, questões éticas, sociais, valor da pessoa humana etc. [ …] O Cristão que pensa desafia os preconceitos correntes […] perturba os complacentes [ …] questiona as bases de tudo que lhe diz respeito e faz-se incômodo.” (2)

O pensar de maneira cristã, ou, o “pensar cristãmente” não é um mero capricho de alguns que se julgam intelectuais e que, supostamente, abriram mão de serem orientados pelo Espírito Santo e pela Palavra de Deus. Longe disso. Não estou aqui propondo uma exacerbação dessa qualidade, a de “ser intelectual”. Se o fizesse estaria pendendo para uma visão (de mundo) Iluminista que, dentre outras coisas, valoriza alguém em função de sua capacidade de reflexão e desapego a valores e idéias, especialmente religiosas.

O “pensar cristãmente” remete à uma qualidade inerente a todos nós, de natureza intelectual, da qual somos dotados da mesma forma como somos (dotados) de emoção, sentimento, sexualidade, inteligência, consciência e da capacidade de interagir de forma consciente conosco mesmos, nossa história, com o meio ambiente, com o Criador e com tudo ao nosso redor, qualidades essas que devem ser igualmente cultivadas.

Por outro lado é preciso evitar o perigo de enfatizarmos de maneira desmedida o lado do entendimento humano obscurecido por essa “perversão essencial” (pecado original) que faz parte de nós. Mas ainda que o nosso entendimento seja rebelde e incapaz de cumprir a vontade de Deus, ele o é em contraste com o que a mente era originalmente, antes do pecado de Adão, e, em contraste com a mente restaurada após a redenção. É preciso também enfatizar a importância e o papel da mente restaurada pela nova criação em Cristo (Rm 12.1,2; 1 Co 2.16; 2 Co 4.6; 5.17). Sobre o texto de Romanos John Stott afirma:

[ …] aqui o apóstolo pressupõe que os cristãos têm (ou pelo menos devem ter) uma mente renovada, como também que essa mente renovada produz um efeito radical na nossa vida, já que nos capacita a discernir e aprovar a vontade de Deus, transformando assim a nossa conduta. A seqüência é constrangedora. Se quisermos viver corretamente temos de pensar corretamente. Se quisermos pensar com integridade precisamos ter uma mente renovada, pois uma vez ela renovada, nossos interesses já não seguirão as propostas do mundo, mas a vontade de Deus, que nos transforma.” (3)

Saber articular uma apresentação do Evangelho que seja ao mesmo tempo fiel às Escrituras e relevante no mercado das idéias é uma questão crucial para o cristão, especialmente nesse ambiente cultural no qual vivemos e que é caracterizado por essa multiplicidade de opções e experiências religiosas.

A pluralidade de cosmovisões nos dias atuais, seja na esfera religiosa, filosófica ou ideológica, exige um realinhamento individual e comunitário de um pensar e agir cristão, fundamentado numa visão cristã do mundo, da cultura, do sistema sócio-econômico-político e religioso que nos cerca e no qual estamos inexoravelmente envolvidos, do contrário estaremos nos expondo às críticas, muitas vezes merecidas, que têm sido levantadas contra os Cristãos atuais, especialmente, os “alinhados” com o mundo “Evangélico” ou “Gospel”, pela sua irrelevância, falta de propostas inteligentes e numa perspectiva mais ampla do cenário sócio-político-econômico-cultural e religioso, em nosso país.Tomemos como exemplo as questões relacionadas com Aquecimento Global e Meio ambiente. Você se lembra de ter visto alguma matéria na mídia evangélica estimulando os “fiéis” ou as instituições religiosas, acadêmicas, ou não, a se manifestarem de alguma forma a respeito desses temas? Você conhece algum universitário ou acadêmico evangélico que se dedica à pesquisa nessa área?
Cristãos - Evangélicos, Gospel e de outras tribos - têm todas as razões e possibilidades desse mundo, e também de fora desse mundo, para criar uma mobilização sem precedentes sobre uma questão dessa importância. No entanto nada, ou quase nada, fazem para preservar os recursos naturais, muito embora o tema “criação” esteja sempre presente em seus discursos e “cânticos espirituais”. Não se dão conta de que, na prática, sua omissão passa por um processo de “reciclagem ao contrário” e contribui para uma maior degradação do planeta. Onde está o “pensar” de forma cristã a respeito de um assunto de tamanha importância?

Enquanto a comunidade científica e entidades ligadas ao Meio Ambiente do mundo inteiro se mobilizam para reverter o impacto do Efeito Estufa, por exemplo, os Evangélicos dos Estados Unidos da América, principal emissor de gases do mundo, nada fazem para convencer seu governo a apoiar o Protocolo de Kyoto. Aparentemente o que vale para eles é a política do “LEFT BEHIND”. A única coisa que importa é não ser deixado para trás. Os Evangélicos e gente Gospel no Brasil, na sua maioria, sinalizam estar na mesma rota.

Felizmente, porém, embora não tão abundantes, há exceções. Por isso merecem ser lembradas. O seu nome é Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente. Evangélica.

Na opinião da Ministra, a sociedade – isso inclui os cristãos de um modo geral - também é culpada pelo desmatamento da Floresta. Ela critica a atitude da sociedade como um todo que se surpreende com o crescimento do desmatamento da Amazônia, e ao mesmo tempo consome produtos que contribuem para a devastação da floresta. Segundo ela: “A sociedade brasileira tem de parar com o consenso oco de querer preservar a Amazônia e, muitas vezes não olha que fica o tempo todo incentivando as atividades produtivas insustentáveis. Compram madeira cuja origem não sabem, não se preocupam com o que vai para a sua mesa, se isso está sendo feito ou produzido à custa da perda da biodiversidade.” (4)

Fica aí uma sugestão para as igrejas, Seminários e Programas de Pós Graduação de universidades Evangélicas: objetivar um estudo que jogue luz sobre o porque dos Evangélicos atuais não estarem engajados em causas como esta, do Meio Ambiente?

Não está na hora de fazermos um auto-exame, conforme sugere Sócrates?

Mas é bom começarmos logo, do contrário logo haverá outros que, à semelhança de Bertrand Russell, estarão dizendo, e com razão:

“Os cristãos, na sua maioria, preferem morrer a se dar à reflexão e ao pensar. Na verdade é isso que eles acabam fazendo, isto é, morrendo.”

Para pesquisar, pensar e agir:

Pesquise o conteúdo programático das instituições de Ensino Teológico ligadas ou não à sua igreja – caso você faça parte de alguma - e verifique se existe alguma disciplina relacionada com o Estudo das Questões Ambientais.

Notas

1. Palestra de Os Guinnes, no C. S. Lewis Institute, em conferência sobre o tema “Confronting the 90´s”, em Washington DC, EUA.

2. Blamires, Harry. The Christian Mind. London: SPCK, 1963, p. 43.

3. Stott, John. O Cristão Em Uma Sociedade Não Cristã. Rio de Janeiro: VINDE, p. 55.

4. Estado de SP 20/05/05 Folha Ciência – Página A-18

Texto extraído e adaptado do livro “Evangelização no Mercado Pós Moderno” (Editora Ultimato), de Robson Ramos.

3 comments

Os conselhos de Sêneca.

     Gostemos ou não, somos parte da “sociedade cosmopolita global”. Vivemos na era da Internet, da blogosfera, do consumismo compulsivo e da parafernália de gadgets eletrônicos que servem para nos entreter, tornar a vida mais produtiva e agilizar os negócios. É a era da hiperinformação, inclusive religiosa. Novas igrejas surgem em cada esquina. Na programação da TV é absoluto o predomínio de um certo tipo de discurso religioso.

     Se o remédio estivesse na adesão à essa ou àquela receita não veríamos o aumento pela busca de sentido e pela felicidade. É interessante observar a presença dessa ânsia e sensação de necessidade de se locupletar com todo tipo de novidade e modismo, mesmo entre assíduos frequentadores dos cultos religiosos, o que nos leva a pensar que a religiosidade, no sentido tradicional, talvez não seja suficiente para preencher o vazio e dar o sentido que se busca.

     Numa matéria entitulada “Le bonheur par la philosophie -  A felicidade pela filosofia” uma edição recente da revista francesa L´Express,  chama atenção para o fato de que o interesse pela filosofia e a busca por sentido têm aumentado exponencialmente.

     Refletindo disso são os vários livros que têm sido lançados no Brasil, ganhando espaço entre um número cada vez maior de pessoas, de todas as classes. Será um sinal de que as igrejas e seus cultos, embora quase onipresentes, não estão dando conta do recado?

     A editora Nova Alexandria lançou recentemente a obra “Sobre a Vida Feliz”, que Sêneca escreveu nos primeiros anos da era cristã. Segue uma pequena parte dessa obra: “É feliz, portanto, quem tem um juízo reto; é feliz quem está contente com a sorte atual, seja ela qual for e ama o que tem; é feliz aquele para quem a razão é que faz valer todas as coisas de sua vida.”

     Se esse é ou não o tipo de felicidade almejada nos dias de hoje, é difícil saber. O fato é que vivendo abastados, em todos os sentidos, inclusive de receitas religiosas, prontas e de consumo rápido, e somos atores numa sociedade caracterizada por um lado pela hiperinformação – inclusive religiosa, e, por outro, pela superficialidade. Nas palavras do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, “em nossa época líquido-moderna, o mundo em nossa volta está repartido em fragmentos mal coordenados, enquanto as nossas existências individuais são fatiadas numa sucessão de episódios fragilmente conectados”.  Possivelmente, por conta disso e de outros fatores, a fome por sentido e a busca por felicidade vão se tornando “sonho de consumo” e ecoando de forma cada vez mais audível.

     Por falar nisso acabo de lembrar que fui convidado a participar do “Café Filosófico” que fará parte da programação da Feira do Livro que será realizada dentro de algumas semanas, na cidade onde estou morando. Para mim será particularmente especial o fato de que o tal “Café Filosófico” será realizado no coreto da praça da (Igreja) Matriz.  Me dei conta de que há muito tempo não sento num banco de praça para ler o jornal, bater papo com amigos, ou para simplesmente ficar olhando as árvores, tomar sol, ou para namorar. Está na hora de voltar a freqüentar a praça, onde possivelmente encontrarei outras pessoas em sintonia com os conselhos de Sêneca.

5 comments